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Perceba porque é que a estratégia de criar expetativas mais altas do que aquelas que pode cumprir é fundamental para a Tesla.

Durante toda a semana passada, os analistas de Wall Street, incluindo os peritos do Morgan Stanley, Baird e Barclays, diminuiam as previsões para o crescimento das ações da Tesla (NASDAQ: TSLA).

Além disso, os especialistas estão a dar avaliações contraditórias sobre a futura dinâmica das ações da empresa: alguns bancos apostam no seu crescimento, enquanto outros ficam à espera de uma queda para $220 ou até mais.

Isso pode parecer estranho. Não foi a Tesla que apresentou o seu novo modelo, Model X Crossover SUV? E a empresa não é dirigida pelo CEO mais interessante do mundo?

Ambas as respostas são “sim”, porém mesmo um veículo revolucionário, com portas “asas de falcão”, a capacidade de atingir 100 km/h em 3,2 segundos (o que pode competir com alguns carros legendários), e também toda a popularidade de Elon Musk e o seu carisma não podem superar aquele fator extremamente importante para Wall Street quando se trata da Tesla.

Vendas.

O maior problema para a Tesla são as entregas: será que a empresa é capaz de vender os seus automóveis e depois alocar o dinheiro no banco?

Série de falhas

Infelizmente, no momento a Tesla tem um histórico muito rico em não atingir as suas metas de vendas. Por dois anos seguidos os resultados do quarto trimestre não têm estado nada bons. No ano passado a empresa visava vender 35 mil veículos, mas não o conseguiu fazer. A Tesla produziu este número de carros, mas as entregas foram adiadas até janeiro de 2015.

Neste ano, Musk e a sua equipa contavam com 55 mil entregas, mas no meio do ano a meta foi revista para 50-55 mil. Mais uma vez a empresa terá que se esforçar muito para conseguir entregar mais 17 mil carros até ao fim do ano.

O risco de incumprimento de entregas — e também outros fatores, principalmente o preço alto dos primeiros modelos do Model X que ultrapassa 100 mil dólares — faz com que os analistas, que ainda não se esqueceram do ano passado, dizerem “Já vimos isso” e diminuir as previsões do crescimento das ações.

Então porque é que a Tesla faz isso: prometer mais do que pode fazer?

Porque neste etapa da história da Tesla, se a empresa prometer menos e fizer mais, não vai ganhar nada com isso.

Quanto à qualidade, a Tesla tem ultrapassado sempre as suas metas. Os clientes, os peritos e as revistas temáticas concordam que os carros da empresa são perfeitos.

Mas quanto aos negócios, a Tesla nunca cumpre os planos e atrasa o lançamento dos novos modelos. Mesmo sendo fascinante, a apresentação do Model X saiu com dois anos de atraso. Ninguém garante que o mesmo não aconteça com o Model 3, cujo lançamento está planeado para 2017. Na verdade, podemos contar com 2018 ou 2019.

Ações em queda novamente

A visão

Afinal de contas, a Tesla é uma empresa baseada no sonho de mudar o mundo. Substituir todos os veículos de combustíveis fósseis pelos carros ecológicos. Você pode ser cético em relação a isso, mas confie — Elon Musk acredita nessa ideia. E a motivação dele é até mais forte que o dinheiro.

A tarefa mais importante para a empresa é semear e perpetuar esta ideia. Musk não quer que a Tesla compita com a Ferrari — ele quer deixar a Toyota e GM para trás ou pelo menos fazer estas empresas juntarem-se aos esforços dele para mudar a indústria dos transporte para sempre.

A Ferrari não precisa de convencer ninguém que é capaz de ultrapassar todas as expectativas. A fabricante italiana de supercarros, que ontem lançou a IPO e pode ser avaliada em $10 mil milhões, anuncia que irá lançar 7 mil carros ao ano — e depois lança 7 mil e vende-os todos. No futuro poderá produzir ainda mais. Mas se a Ferrari mantiver o mesmo nível, não será grave.

A Tesla é uma história completamente diferente. É impossível mudar o mundo sem falar sobre os planos grandiosos. Afinal, sem metas ambiciosas, você não tem muita história. Por isso, Musk não tem outra escolha a não ser prometer demais, sabendo que o incumprimento do plano é provável.

Isso provoca uma volatilidade alta das ações, e às vezes as oscilações estão na casa dos $100. Mas qualquer um que conheça a indústria automóvel entende os motivos da Tesla. Há razões pelas quais os novos fabricantes de carros surgem apenas uma vez em algumas décadas. E não se esqueçam: a Tesla não só se quer tornar num novo produtor de automóveis, como também visa introduzir a nova tecnologia de motor elétrico que antes nunca desempenhou um papel importante no setor.

Aquilo que a Tesla não quer ser

Não é um Grande Fracasso

Neste contexto, as pequenas falhas da Tesla são mais preferíveis do que um Grande Fracasso que já sofreram tantas startups de “carros do futuro”. Musk apresenta a Tesla como uma empresa que se supera a si mesma — ao melhorar tecnologias e produção — porque isso corresponde ao que o CEO diz. É frustrante para os analistas verem mais um fracasso da Tesla no quarto trimestre. Mas em grande escala é apenas um pequeno desvio.

Para entender melhor a companhia, é preciso viajar para o futuro. Aí podemos imaginar o mundo daqui a 10-20 anos em que a Tesla vende 500 mil carros ao ano, e todos os meios de transporte no mundo substituiram a energia da combustívies fósseis pela elétrica.

Naquele mundo não importa quantos carros a Tesla vendeu em 2015 — 50 ou 48 mil. Por mais que a Tesla não cumpra as suas promessas, tudo será compensado pelo seu supercumprimento das metas no futuro. Se você admite que a Tesla está a ir nesta direção, então prepare-se para as deceções nos próximos 10 anos.

A Tesla é uma empresa baseada num sonho. E os sonhos nem sempre se realizam segundo os horários.

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