Kiruna – a cidade que vai ser deslocada
Reuters Staff/Reuters
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Kiruna, cidade sueca, corre o risco de se “afundar no solo”. Toda a população e parte dos seus edifícios serão movidos 3 km para leste

A cidade mais setentrional da Suécia, Kiruna, volta a ser notícia. Vai ser deslocada – sim, deslocada – cerca de 3 km para leste. Trata-se de uma história incomum do Círculo Ártico que, curiosamente, não se relaciona com as alterações climáticas.

Uma cidade vai ser deslocada? Por que razão?

Os planos quanto à deslocação de Kiruna já existem há alguns anos. A cidade, confortavelmente localizada dentro das fronteiras do Círculo Ártico e lar de pouco mais de 18.000 habitantes, foi construída sobre uma colina em cima de uma vasta mina de minério de ferro. Fundada em 1900 com apoio de uma empresa de mineração estatal, Kiruna tem sido uma cidade industrial desde então.

Agora essa indústria está a colocar a cidade em risco – e irá pagar pela sua relocalização. Como a mina na fronteira ocidental de Kiruna se expandiu mais profundamente para dentro do solo está a ser removido minério das fundações da cidade – o que está a minar, literalmente, o terreno onde a mesma assenta.

Se a deslocação não tiver lugar grande parte da cidade irá afundar à medida que o solo diminui – parte de um processo chamado deformação do solo. Felizmente a equipa de mineração, a Luossavaara-Kiirunavaara AB (geralmente abreviada como LKAB) dedicou mais de mil milhões de dólares para relocalizar os habitantes de Kiruna.

Quando é que a deslocação terá lugar?

A deslocação irá ocorrer de forma faseada – e a primeira fase já teve início.

A LKAB e o governo de Kiruna estão a coordenar a deslocação em conjunto – e num pequeno documentário divulgado pelo governo da Suécia na passada terça-feira, os habitantes locais pareciam pouco informados quanto à data de realização de grande parte da deslocação. No entanto, Erika Lindblad, porta-voz da LKAB, avançou que muitos serão deslocados “dentro de poucos anos”. Confirmou que apesar de grande parte da deslocação estar planeada, existem ainda diversos detalhes a tratar. Cerca de 400 famílias já se mudaram.

Toda a cidade será deslocada?

Alguns edifícios, incluindo a Igreja de Kiruna – que em 2001 foi eleita pelos suecos como o edifício mais bonito do país – serão movidos para o centro da nova cidade, bem como a torre do relógio no atual edifício da câmara municipal.

No entanto, a grande maioria dos edifícios será demolida e reconstruída no novo local – e novas habitações também. De acordo com o documentário, a LKAB irá comprar as casas aos moradores – assumindo 125% do preço de mercado pré-determinado.

Num vídeo promocional do projeto encomendado à White Arkitekter, uma empresa sueca que ganhou o concurso para redesenhar a cidade, Mikael Stenqvist, arquiteto na empresa, explicou:

“Kiruna será um pouco como um milípede que anda com mil pés – a mover-se, a rastejar-se lentamente, um par de quilómetros para leste.”

É a primeira vez que acontece?

Não, não é. A cidade natal de Bob Dylan – Hibbing, no Minnesota – moveu-se cerca de 3 km para sul da sua localização original entre 1919 e 1921. Numa situação reminiscente de Kiruna, Hibbing foi movida para abrir caminho para uma empresa de mineração.

Outras cidades – incluindo Hill Village, em New Hampshire, e Tallangatta, na Austrália – foram movidas para evitar as inundações causadas pela construção de novas barragens. Um subúrbio de Louisville foi relocalizado na medida em que os seus moradores se sentiam atormentados pelo ruído de um aeroporto nas proximidades – e são diversas as cidades ao redor do mundo que estão a considerar o mesmo como resposta às alterações climáticas.

Então a medida não se relaciona em nada com as alterações climáticas?

Aparentemente não. Apesar das alterações climáticas ameaçarem populações à volta do globo Kiruna é ameaçada por buracos – não pelo aumento do nível do mar. A temperatura média anual é de cerca de - 2ºC, de acordo com a Climate-Data.org.

Quanto irá custar?

Considerando que o projeto tem uma duração incerta é difícil prever o seu custo total. No entanto, Lindblad – porta-voz da LKAB – avançou que a empresa dedicou cerca de 12 mil milhões de coroas suecas ao projeto – mais de mil milhões de dólares.

Quanto tempo irá demorar todo o processo?

A White Arkitekter descreve a sua visão para a cidade como um “plano de 100 anos” dando uma boa noção da escala do empreendimento. Para ganhar o direito a redesenhar a cidade teve de apresentar um plano para 20 anos – que estabelece a maior parte da deslocalização até 2033.

Eva Ekelund, que dirige o departamento da terra e desenvolvimento da cidade, avançou ao The Guardian que “também há ferro sob o centro da nova cidade” – invocando o espetro de uma nova re-deslocalização. No entanto, não é claro se a cidade terá de se mover novamente.

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