Crise dos migrantes: 700 mortes no Mediterrâneo em três dias
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As embarcações de migrantes continuam a naufragar

Três dias e três embarcações naufragadas confrontam a Europa com os horrores da crise dos refugiados – com pessoas desesperadas, a tentar alcançar o continente, a morrer no mar. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados pelo menos 700 pessoas, das três embarcações que afundaram, ter-se-ão afogado. Tratou-se de uma das semanas mais mortais no Mediterrâneo.

As últimas mortes são um lembrete do cruel paradoxo do calendário do Mediterrâneo: à medida que o verão se aproxima e o tempo quente e as águas tranquilas são apreciadas pelos turistas, o tráfico de seres humanos ao longo do litoral do Norte de África tende a aumentar em número e velocidade.

Tirando vantagem das condições calmas, traficantes na Líbia enviam mais e mais migrantes para Itália, geralmente em embarcações incapazes. As mortes por afogamento são inevitáveis, mesmo com a Guarda Costeira e Marinha italiana a responder a chamadas de socorro. No ano passado, mais de 3.700 migrantes morreram no Mediterrâneo, um número que poderá ser superado este ano.

Em comunicado no domingo, a UNICEF avançou acreditar que muitos dos migrantes que se afogaram na semana passada seriam adolescentes desacompanhados.

A semana também destacou o complexo problema que a crise dos refugiados coloca à Europa. Os líderes do continente, que enfrentam uma reação anti-imigrante em muitos países, assinaram um controverso acordo com a Turquia que até agora reduziu drasticamente o fluxo de migrantes para a Grécia; no ano passado, cerca de um milhão de pessoas atravessaram os Balcãs em direção à Alemanha.

No entanto, o encerramento da rota grega mudou a atenção para a mais longa e perigosa rota marítima da Líbia para Itália. De acordo com as Nações Unidas e com a Organização Internacional para as Migrações, até à última quarta-feira tinham sido resgatados do mar cerca de 41.000 migrantes depois de terem deixado a Líbia, quase o mesmo número que o verificado no mesmo período do ano passado.

O potencial aumento repentino de movimentações é claro: mais 4.000 migrantes foram resgatados apenas na quinta-feira, o mesmo dia em que mais de 550 pessoas morreram na segunda embarcação que afundou.

De acordo com Federico Fossi, porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados:

“Tratou-se de uma semana muito intensa e excecional em termos de número de fatalidades.”

As mortes também apontam para a falta de soluções para a crise dos migrantes, que tem sigo agravada pelo caos violento na Líbia e alimentada pelo conflito na Síria.

Não acolher migrantes sairá caro aos países da UE

Representantes do Alto Comissariado estiveram a entrevistar sobreviventes das três embarcações que naufragaram depois dos mesmos terem chegado a portos italianos. As entrevistas foram a principal base para a estimativa de 700 mortes, embora alguns especialistas tenham advertido que o número poderá vir a ser superior.

O pior episódio terá ocorrido na quinta-feira. Um barco foi rebocado para longe da costa da Líbia por um navio maior – os sobreviventes relataram ter sido amontoados numa embarcação com 670 pessoas – e assim que o navio largou o cabo de reboque a embarcação menor virou.

Havia já 100 pessoas desaparecidas da embarcação que tinha afundado na quarta-feira. Na sexta-feira, a marinha resgatou 135 migrantes – e recuperou 45 corpos – de um barco que se afundou entre a Líbia e Itália.

De acordo com Giovanna Di Benedetto, porta-voz da Save the Children na Sicília, grupo humanitário sem fins lucrativos:

“Esta semana foi um massacre.”

Fossi, porta-voz das Nações Unidas, advertiu que o número poderá aumentar, acrescentando:

“E certamente muitas dessas vítimas serão mulheres e crianças, como de costume.”

A grande maioria dos migrantes que tentam chegar a Itália são provenientes de países da África subsaariana – como a Eritreia, Gâmbia, Gana e Nigéria. No ano passado, os refugiados da Síria, Afeganistão e Iraque chegaram à Europa viajando essencialmente da Turquia para a Grécia.

Agora que a rota grega foi “desativada” surge a questão se sírios e iraquianos irão tentar chegar à Líbia para a perigosa viagem para Itália. Foi esse o caso em 2014, antes dos traficantes se focarem na Grécia.

O primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, tem tentado forçar a União Europeia a focar-se na Líbia. Voltou a levantar a questão no recente encontro do G7 e propôs a realização de uma reunião do G7 no próximo ano, na Sicília, que tem suportado o peso da crise dos migrantes em Itália. Renzi também propôs a criação de euro-obrigações para ajudar a financiar a resposta à crise – um movimento até agora não apoiado pela Alemanha.

A atenção tem-se focado bastante na Alemanha na medida em que absorveu quase um milhão de refugiados que chegaram no ano passado. No entanto, também Itália está a sentir a pressão. Com a temporada de verão a chegar, são já 115.000 os migrantes que chegaram a Itália, um grande aumento face a apenas alguns anos atrás.

A agência de notícias italiana transmite regularmente vídeos e fotografias de barcos afundados bem como de homens, mulheres e crianças envolvidos em cobertores térmicos.

No sábado, no Vaticano, o Papa Francisco mostrou a um conjunto de crianças um colete salva-vidas utilizado por uma menina síria que morreu a tentar chegar à ilha grega de Lesbos. Dirigindo-se à sua audiência jovem, o Papa Francisco afirmou:

“Os migrantes não são um perigo – eles estão em perigo.”

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