O que ameaça o crescimento da Bitcoin?
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23 Janeiro
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As criptomoedas são alvo de uma vulnerabilidade muito humana: a psicologia

Se tiver comprado uma Bitcoin (Bitcoin) no início de 2017, quando custava menos de 900 dólares, terá alcançado lucro de mais de 1.200% agora. Porém, o mais provável é que não tenha comprado nada. Talvez tenha procurado entrar no mercado devagarinho em novembro ou dezembro do ano passado, quando o preço da criptomoeda fazia manchetes — 10.000 dólares, depois 15.000 dólares e por aí em diante. Se tiver comprado no pico de cerca de 20.000 dólares (alcançado em dezembro) terá perdido mais de 40% do investimento a 16 de janeiro, altura em que o preço caiu para 11.200 dólares. Registou-se, em 24 horas, queda superior a 2.000 dólares — depois do Ministro das Finanças da Coreia do Sul ter indicado que o país poderia proibir a negociação de criptomoedas para desencorajar a especulação.

Não são todos os ativos que parecem estar numa bolha e em situação de crash em simultâneo.

Porém, com base naquilo que a Bitcoin custava há um ano (sem considerar qualquer outra métrica), o preço da Bitcoin continua elevado. Para os muitos descrentes, que não conseguem acreditar que as coisas chegaram a este ponto, e para os detentores de Bitcoin que temem o que poderão perder, a questão que se coloca é o que será necessário para que o preço caia ainda mais.

“A Bitcoin e restantes criptomoedas têm sido incrivelmente resilientes a más notícias.” — Afirmou Meltem Demirors, diretora de desenvolvimento no Digital Currency Group, que investe na Bitcoin e tecnologia relacionada. Plataformas de criptomoedas como a Mt. Gox, a Bitfinex e a BTC-e têm sido alvo de ataques de hackers ao longo do tempo, com o equivalente a centenas de milhões de dólares em bitcoins roubados. Mais: em setembro passado a China procurou cessar toda a negociação de criptomoedas em bolsas de câmbio. Porém, nada disso parou de fora permanente a subida de preço da Bitcoin, especialmente depois da criptomoeda ter chamado a atenção de traders de fundos de cobertura e dos mercados de futuros.

Bitcoin: guia passo-a-passo para principiantes

Um cenário de fim do mundo para o mercado das criptomoedas seria um ataque informático bem-sucedido à blockchain. Trata-se da tecnologia subjacente às criptomoedas que regista e verifica cada transação realizada. Um “atacante” poderá ser capaz de alterar o histórico da blockchain. No entanto, trata-se de algo monumentalmente difícil. Alguém com a tecnologia para fazê-lo poderá em vez disso “optar pelo jogo” e ser pago para minerar Bitcoin, como sugerido por Tyler Winklevoss, cofundador da plataforma de ativos digitais Gemini e um dos maiores detentores de Bitcoin.

Na realidade, os riscos prováveis são muito mais banais. Um exemplo: apesar de muitos investidores e especuladores terem reunido bitcoins, trata-se de uma moeda difícil de utilizar no mundo real. A rede é lenta e cara para pequenas transações — e quem é que quererá gastar 4 dólares em Bitcoin por um café se na próxima semana tal poderá representar 8 dólares? “A minha maior preocupação enquanto empresa é que a moeda digital não encontre aplicação, ao ponto de se dizer: ‘Uau, agora temos dezenas de milhões de utilizadores diários ativos a utilizá-la para pagamentos.’” — Afirmou Adam White, que gere a GDAX, plataforma da Coinbase para investidores institucionais. “É uma das maiores ameaças para a empresa.”

Mais: tem havido uma guerra civil muito pública entre programadores por detrás da Bitcoin: um grupo favorece alterações à rede, o outro não. “A comunidade de desenvolvimento tem de se unir e perceber como escalar de forma adequada e contínua.” — Afirmou Sheri Kaiserman, diretora da Wedbush Securities e uma das primeiras apoiantes da Bitcoin em Wall Street. Entretanto, a Bitcoin encara maior concorrência de outras criptomoedas, como a Bitcoin Cash, a Litecoin e a Ethereum, que também têm observado grandes ganhos e ampla oscilação.

Contudo, o maior risco para a Bitcoin é na realidade fácil de compreender. “O principal fator a conduzir o preço para cima é potencialmente aquilo que o irá levar para baixo: uma inversão do espírito animal.” — Afirmou Adam Ludwin, CEO da Chain, start-up focada na tecnologia blockchain. “Há a crença de que irá continuar a subir. Se as pessoas acreditarem que irá cair, tal será auto-reforçador.”

Para explicar essa psicologia Ludwin invocou John Maynard Keynes. O economista deu o exemplo de um concurso de jornal em que os leitores foram convidados a escolher a fotografia da pessoa que a maioria das pessoas acharia mais atraente. Para ganhar, o leitor teria de ignorar a sua própria opinião e apostar puramente no palpite do que a pessoa média consideraria mais atraente. Ou no que os outros jogadores poderiam pensar que seria do agrado do jogador médio.

As criptomoedas em geral “são uma das destilações mais belas do concurso de beleza de Keynes.” — Afirmou Ludwin. Todos os investimentos têm este elemento especulativo mas ao contrário de, por exemplo, uma ação, a Bitcoin não representa ganhos futuros certos. Apostar na Bitcoin é acreditar simplesmente que outros a quererão.

Uma leitura da psicologia ao redor do boom da Bitcoin é que faz parte de um mercado com tendência altista para todo o tipo de ativos. Apesar de ansiedades com políticas, Coreia do Norte e aumento da valorização de ativos, os investidores parecem estar com disposição para abraçar o risco: temem perder grandes ganhos. Ou então a Bitcoin é o lado oposto desse otimismo: muitos estão focados nas criptomoedas pois veem-nas como paliativo ao sistema que quebrou em 2008 — e a sua crença na Bitcoin não tem sido abalada. A psicologia é difícil de identificar — a única coisa fiável ao seu redor é a volatilidade.

Conclusão

Apesar do seu aumento meteórico nos últimos anos a Bitcoin continua um investimento extremamente volátil, sendo capaz de cair mais de 2.000 dólares num dia com más notícias.

Fonte: Bloomberg

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